domingo, maio 16, 2004

Amigos de Foda

Quando você está só, fodido e ainda por cima bate aquela preguiça de ir à luta, Amigos de Foda (AFs) ao alcance do celular são uma grande pedida. Amigos de Foda, Fuckbuddies, Foda Garantida, Foda Certa, Foda Fixa, uóréver... Minha mini-amiga (h_bo.blogspot.com), por exemplo, os chama de Pocket-Putos®. Eu prefiro Amigos de Foda mesmo. Porque a palavra Amigo vem primeiro.

Quem não tem AFs pode pensar neles somente como uma boa foda, sem muito a oferecer além-cama. Não é verdade. AFs são, antes de mais nada, amigos ou conhecidos muito legais, que ainda por cima conseguem ser charmosos, gostosos e sentir mais ou menos o mesmo por você. E por que então a coisa não engrena? Há muitas razões. Moram muito longe, estão casados ou ligados a alguém que no momento não podem ter, são fascinantes mas você não se imagina todo dia ao seu lado, são ex-qualquercoisa mas vocês concordam que a cama ainda é ótima, não fazem atendimento completo, querem ficar como estão, não têm espaço na agenda, preferem FHC à Lula, blá blá blá.

AFs são muito especiais e por isso é que o meu cardápio tem poucos e bons. Mas quando você está apaixonado, quando começa a namorar, imediatamente esquece deles. Passa batido pelos seus nomes na agenda do celular. Viaja para a cidade deles e não telefona. Recebe aquele torpedo ou e-mail indecente e nada sente. E vice-versa. Porque nessa hora ele (ou você) vai ser sempre O Outro, o número dois. A palavra Foda pesa mais que Amigo. Não deveria, mas pra mim funciona mais ou menos desse jeito.

AFs vêm em unidades ou em pares. Em pares são sempre mais complicados, o risco de um dos dois ficar ligado é grande. Afinal você começa a dar vazão a todo o tipo de fantasia reprimida pelo casamento. Como já estive dos dois lados dessa história, tenho minhas conclusões. Um tanto óbvias. Provavelmente você vai ter uma queda a mais por A, mas na hora H, você vai ser superlegal e dividir igualmente sua atenção entre A e B. Não importa o quão parcimonioso seja, B vai perceber. A saia é justa, mas a vantagem de ser o terceiro na história é poder pular fora quando a coisa complica. E quando ela complica? Quando você vira Ombudsmann da relação. (Melhor, Ouvidor da relação. Segundo meu amigo Pedro, temos uma palavra linda no nosso vocabulário: Ouvidor, que quer dizer exatamente a mesma coisa. Por que então o dizemos em sueco: Ombudsmann?)

Conheci meus AFs em bares, clubs, festinhas, através de amigos e em outros carnavais. Na internet acho complicado, mas isso é um capítulo à parte. Quando estou desimpedido, gosto de reencontrá-los porque sempre temos muito a dizer um pro outro, conhecemos muito ou o suficiente da sua intimidade, não há tantos segredos, podemos abrir o coração. E depois de tudo ainda podemos nos divertir juntos. Ter AFs não é sonho de consumo, não é estilinho de vida. É o que é. O que a gente quer mesmo é ter alguém tão legal do lado que os torne totalmente dispensáveis. Mas não tem, nunca a vida toda. E essa é a única razão para colecionarmos AFs. Sem eles, nos momentos de solidão aguda, talvez eu fumasse mais, bebesse mais, talvez começasse a usar drogas. AFs fazem bem à saúde.