Círculos e Espirais
Trabalho há quase 9 anos com internet mas, se cheguei a ter alguma fase realmente cyber na minha vida, não durou mais que 2 meses. Por esse e por tantos outros motivos, nunca tive essa mania de ficar visitando blog de gente que não conheço. Mas ontem era sábado, o dia e eu estávamos cinzentos e comecei a dar uns cliques. Não sei depois de quantos, acabei caindo aqui: www.alguemviumeuky.weblogger.terra.com.br. Apesar do nome "Alguém aí viu meu KY?" fazer parecer se tratar de mais um daqueles blogs recheados de abobrinhas, o conteúdo diz muito. Gostei das opiniões deste cara, o Rique, como do seu bom humor. Não sei quem é, como é, nem o que faz da vida. Também não acho que isso seja importante.
O tema é: Sobre esse negócio de andar em círculos.
Todos em algum momento já paramos pra pensar nessa enervante repetição de ciclos que a gente vive por vontade ou imposição do destino (e por favor, não venham com essa baboseira-clichê de que somos nós que sempre traçamos o nosso próprio destino, ok?). Eu já tive este tipo de nóia de andar em círculos antes, mas nunca me ocorreu de colocar "no papel". Até ontem. Até ver o KY do Rique.
Provavelmente pelo fato de eu um dia ter sido arquiteto, tendo a ver tudo de um jeito tridimensional. Esse negócio de andar em círculos pra mim é assustador e inconcebível. Depois de 15 anos ou mais andando assim, a gente se liga que certas emoções adolescentes ficaram já bem distantes e não cremos na menor possbilidade de elas se repetirem exatamente do mesmo jeito. Dificilmente conseguimos estabelecer o dia exato em que essas mudanças de atitude ocorrem, embora possamos recordar de alguns eventos catalisadores. Se simplesmente estivéssemos andando em círculos, não estaríamos vivendo aos 30 paixões típicas dos 15? Pra ilustrar esse nosso eterno dejavù, a imagem que me vem à cabeça não é a de um círculo sobre o qual se transita infinitamente sobre os mesmos pontos. É uma espiral. Uma espiral como uma rampa onde passamos sempre ACIMA dos mesmos pontos, mas nunca NOS mesmos pontos. Pense no Guggenheim de Frank Lloyd Wright ou então fique mesmo com a rampa do estacionamento do Shopping Iguatemi em SP.
Existem aquelas rampas bem rasas, que dão a confortável sensação de andar em pista plana sem esforço. Subir devagar ou correndo é uma questão de escolha, o resultado porém parece sempre o mesmo: vc percorreu uma longa trajetória, mas se elevou apenas alguns metros do chão. Assim pode ser a vida: uma trajetória que não demanda muito esforço mas que também não parece tirar a gente do mesmo lugar. Depois de voltas e voltas e voltas passando inúmeras vezes pelo "quase mesmo ponto", olha-se ao redor e tudo também parece quase igual. Por isso talvez tenha tanta gente que prefira nem olhar.
E tem também aquelas espirais tão íngremes quanto as gaudinianas escadarias da Sagrada Família. Essas ninguém sobe correndo impunemente. Os degraus são altos demais, estreitos demais, sabe-se que existe alguma coisa lá no alto mas, enquanto não se chega a determinado ponto, as espessas paredes mal permitem que se olhe para fora. Uma vez ali, não é permitido descer, só há uma direção a seguir. Embora nos conduzam mais rapidamente a uma nova perspectiva, espirais assim exigem um bom condicionamento físico. Na vida, eu diria que elas exigem um grande condicionamento emocional. E talvez por nos causar tanto esgotamento, a maior parte das pessoas viva o tempo inteiro em espirais mais rasas. Nos seus relacionamentos e em todo o resto. Rasas como elas próprias.
Mas acho de verdade que quase ninguém é tão isto ou tão aquilo. Todos vivemos mais ou menos entre estas duas espirais e há pontos da vida em que elas se interligam. Perdas, paixões, momentos em que somos chacoalhados de alguma maneira a ponto de decidir tomar o outro caminho. Ou simplesmente o tomamos por força das circunstâncias. Essas encruzilhadas estão aí, e como às vezes conseguimos decidir a direção a tomar, muita gente fica com a sensação de que podemos mudar o nosso destino. Não creio. As espirais não mudam, terminam onde terminam, se é que terminam. Sei lá, essa coisa de ficar pensando onde isso tudo vai dar me irrita, ultrapassa demais minha capacidade de raciocinar. Prefiro simplesmente viver entre uma espiral e outra, enfrentando com uma certa aceitação os percursos mais íngremes quando eles parecem necessários. E prefiro acreditar que esta alternância chega a ser saudável no final das contas.
Acho que no último mês estive numa destas espirais mais íngremes. Não sei bem onde ela vai dar, nem quando vai terminar. Mas o que eu queria mesmo, de verdade, assim que chegar na minha próxima encruzilhada, era encontrar um daqueles elevadores panorâmicos da Atlas-Schindler com vista de 270 graus.

4 Comments:
Rapaz, valeu a visita lá no AVMK?
Cheguei aqui e fiquei bastante surpreso com a homenagem, meu. Um elogio pra mim, embora teu post tenha se aprofundado muito mais no assunto (o meu foi totalmente emocional e nada reflexivo).
Esse lance da espiral foi dito também por algumas pessoas, mas de maneira mais rasa. Concordo contigo nessa visão da rampa, só espero que a gente esteja subindo mesmo, ao invés de descer.
Abração
Rique (AVMK?)
2:23 AM
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
2:40 AM
Valeu Rique,
Pena que eu tava meio chapado quando publiquei, vc deve ter lido a versão pré-larica... Enfim, tinhas uns gaps no raciocício, já corrigidos. Quanto ao sentido da espiral, prefiro acreditar que estamos mesmo subindo, ou então, sei lá... :-)
2:49 AM
Cadê vc rapaz????
Tem coisas novas no meu.
Quero ler as coisas novas do teu.
Beijão
Rique (AVMK?)
2:44 AM
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