Querido Diário,
Essa foi mais uma tarde vivida e contada minuto a minuto. Enquanto escrevo um pouco entre meus muitos bocejos, ouço o zumzumzum das discussões de trabalho. Será que os ringtones são monofônicos ou polifônicos o tamanho da imagem não encaixa no layout o ícone precisa ter no máximo dezenove pixels de largura já são quatro horas o telefone toca sem parar não agüento mais ouvir chamarem pelo meu nome rezo pra que não chegue nenhum e-mail antecipando novamente os prazos sinto que seria igual se trabalhasse no pronto socorro ou no pregão da bolsa ao mesmo tempo em que penso no desemprego lá fora pra tentar obter algum consolo. O estímulo de viver tantos dias na pressão ajuda a manter a mente acesa, o pragmatismo, a velocidade do pensamento, a maleabilidade das idéias. Mas também provoca quase três semanas de insônia, overdose diária de cafeína e a busca pelo efeito entorpecente de quatro ou mais cigarrilhas junto com algum álcool quando tudo termina.
Foi no meio do auê desta tarde, na bagunça da minha mesa de trabalho, que encontrei o álbum de fotografias de uma viagem que neste mês completou nove anos. Umas poucas fotos, perto das mais de trezentas que cliquei ao longo daqueles seis meses mochilando por aí. Mas o bastante para me transportar, ainda que por dois minutos, para bem longe daqui. A bicicleta apoiada no tronco de uma árvore à beira do rio ensolarado em Salzburgo, a neblina suave sobre os telhados de Munique, os pátios silenciosos de Toulouse, os guindastes reerguendo a nova capital alemã e os caracóis de cimento subindo as torres da Santa Sagrada Família trouxeram um pouco de beleza para essa tarde tensa e infeliz. Mas nesse momento, não houve espaço para longas viagens ou maiores reflexões. Apenas para o suspiro de quem já não suporta entregar manhãs, tardes e algumas noites ao quotidiano sem pausa para café com o amigo que convida, sem sorrisos que gostaria de ter dado, sem pódio de chegada ou beijo de namorado.

3 Comments:
então partilhamos de alguns gostos pessoais parecidos? careca é tudibom mesmo... e o legal dessas viagens é justamente poder usá-las(ou o sentimento que elas evocam) nos momentos em que estamos sem saco. ah, e foi bom te "conhecer" aquele dia! abração.
6:54 PM
Parece que vc também foi ver Cazuza. O filme tem o poder de fazer todos se sentirem uns bostas, entregues ao cotidiano, enquanto talvez devessem estar curtindo a vida. Funciona muito bem no filme.
1:08 AM
Alien, valeu pelo "oi", qq dia conversamos melhor sobre carecas, mas desde já fica o apoio pra vc entrar pro clube da maquina zero... :-)
É vc de volta, Luis? :-) Bom, nao vi Cazuza ainda, mas sou fã, sempre pontuou bons e maus momentos da vida... Se bem que pra me sentir um bosta nessas horas, nem precisava dele, né?
4:08 PM
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