Questionamento Burguês
Dia desses mais uma daquelas questões meio óbvias me ocorreu:
Por que será que as profissões mais escrotas são justamente as que dão mais dinheiro? Penso na bolsa de valores, nos bancos, na política em geral, no mercado imobiliário e em tantas outras, inclusive na que tem enchido o meu bolso e o meu saco nos últimos anos, a publicidade.
Dia desses fizemos uma campanha para cheque especial. E o redator encarregado para o trabalho travou completamente, pois estava ele próprio afundado em dívidas por conta do cheque especial desse mesmo banco. Meu conselho foi muito simples: guri, cala a boca e continua nadando... Lógico que também dei a maior força, expliquei a necessidade de separar o pessoal do profissional, pra poder ganhar uma grana e cobrir o rombo na conta corrente bla bla bla bla bla bla.
Dia desses fizemos um campanha para título de capitalização que deu um resultado absurdo, muito além das metas igualmente absurdas que ela deveria atingir. A gente sempre se orgulha quando isso acontece. Mas recentemente, uma amigona pediu dinheiro emprestado porque caiu no conto do tal do título de capitalização e não poderia resgatar o dinheiro tão cedo sem sofrer um preju enorme. Dessa vez pelo menos, ao invés de ter que mandar ela calar a boca e continuar nadando, deu para prestar algum socorro.
Dia desses encontrei um ex-colega de trabalho num restaurante, estávamos sós e resolvemos sentar juntos. Lá pelas tantas, não sei por que, toquei no assunto com ele, que é publicitário dos bem-sucedidos. Para a minha surpresa, confessou-me que às vezes tem idéias semelhantes, mas não ousa partilhá-las com naturalidade entre publicitários, pela certeza de que não seria compreendido, de que soaria anacrônico e uma série de outras questões que aqueles preocupados em ganhar leõezinhos no Festival de Cannes jamais entenderiam.
Dia desses, conversando com um grande amigo arquiteto, senti novamente vontade de projetar. Grandes projetos, como fazia nos tempos da faculdade. Desejo de largar tudo, de recomeçar algo menos virtual, mais tangível, apesar de todas as dificuldades desse mercado. Só pra poder passar um dia, daqui a dez anos, em frente a uma bela praça ou escola pública cheia de gente e pensar: fui eu que fiz. Pois tudo o que tenho pensado ultimamente sobre o propósito do meu próprio trabalho é: quem precisa de cartões de crédito, títulos de capitalização ou cheques especiais?
Mas aí olho ao redor e vejo a galera que chamei pra trabalhar comigo e que tem nesse trabalho, assim como eu, a chance de construir uma vida independente e mais estável nesse país tão instável. Alguns vão casar, alguns já casaram, daqui a pouco começam a pipocar os filhos, as babás, as escolinhas, as novas contas a pagar. E então percebo que certas voltas de 180 graus que eu gostaria de ter dado no passado tornam-se cada vez mais delicadas, senão impossíveis. E entendo que, no momento, parece restar apenas uma coisa possível de ser feita: calar a boca e continuar nadando.

4 Comments:
hmmm... eu neste momento estou tentando dar uma dessas voltas de 180 graus, visto que a arquitetura, que tanto você quer voltar, mais me parece um mundo de paredes de pastilha de ouro 24 quilates para dondocas esposas de bicheiros do que de praças e escolas repletas de gente. não sei trabalhar pra poucos, talvez por carência goste de trabalhar pra muitos que me aprovem, e o mercado autônomo nao me permite trabalhar com o urbanismo que sempre gostei (Odete Roitman que em perdoe, mas que saudades de subir uma favela!). estou tentando me transformar em professor, em geógrafo, em DJ, em qualquer coisa que não seja o arquiteto frustrado que me transformei. dá um medo do cão, de estar errado, de estar certo mas fracassar, mas sigo tentando. Nadando sim, mas contra corrente, e por motivos diferentes daqueles das suas braçadas.
mundo chato esse, em que se precisa ganhar dinheiro para se provar bem-sucedido, independente de se estar feliz ou não. gostaria de me contentar com um peito cabeludo pra me recostar toda noite e um punhado de trocados para necessidades básicas, mas o mundo nao permite.
hmmm, acho que deu pane no meu processador mental! estou escrevendo sem parar. eheheh
beijos do "DJ" LeoN
8:26 PM
ok vou juntar-me ao coro dos insatisfeitos profissionais. eu passei boa parte da vida, e ainda continuo, como analista de sistemas. essa profissão já me deu alegrias e desafios que amei superar. mas, depois de muitos anos, descobri que minha verdadeira paixão é a gastronomia. e o pior é que cada dia acordo detestando mais e mais o que faço e sonhando com o dia em que começarei meu curso e depois tentar abrir um restaurante. sonho? loucura para alguém que já está quase na casa dos quarenta? não sei... mas o ano que vem eu largo os computadores e agarro as panelas. custe o que custar.
10:14 PM
Já tive tanto emprego louco, todos com nomes estranhos e difíceis de explicar.. Sempre quis ter um emprego com nome fácil, simples e conhecido. Sempre quis ter happy-hours depois do emprego, mas pelo aspecto exótico de todos eles (mordomo, entre eles), nunca consegui um evento desses... guinadas já dei várias. E hoje percebo que, não importa qual seja, trabalho sempre enche o saco.
Rique (AVMK?)
2:22 AM
DJ LeoN, vc está fazendo o q pra mim é a coisa mais certa: não colocar todos os ovos numa cesta só. A arquitetura, no fim das contas, é um grande celeiro de designers, planejadores, políticos, cartunistas e, por que não, DJs. E depois, vc é tão novinho, que medo de mudar é esse, pô? Já um peitão bem peludo toda noite não dá pra garantir, mas pelo menos qndo vc vier a SP, quem sabe, quem sabe... :-)
Luís, honestamente invejo quem consegue se manter na linha por um longo tempo. Quisera eu estar satisfeito onde estava, teria desenvolvido melhor aquilo que era o meu maior tesão depois do sexo. Hoje só vejo no atual trabalho a grana e as contas a pagar... E, não leva a mal, sempre me divirto com seus "acho q nunca vou ter a capacidade de..." Tão você... hehehe.
Anônimo, não te conheço direito, mas se vc já fez um bom pé de meia, pé no acelerador!
Rique, happy hours depois do emprego andam difíceis pra todo mundo. A gente acreditava que o tempo ia trazer mais tranqüilidade, mas só vejo mais desemprego, mais trabalho pra quem não teve a cabeça cortada e mais prazos insanos. Quando eu ralava a bunda na prancheta virando noites, invejava os bancários. Agora que vejo tantos deles desempregados, sei lá, vou levando a coisa no limite da sanidade. Vidinha besta essa...
3:55 AM
Postar um comentário
<< Home