terça-feira, agosto 24, 2004

Maionese

Por volta dos meus 14 anos, a coisa ficou tão feia lá em casa que não havia dinheiro para algumas coisas indispensáveis como, por exemplo, Maionese Hellmann's. A classe média do país fora achatada mais ou menos uma década antes, a grana do pai já não dava conta, os 3 filhos já tinham migrado para a escola pública e, antes que minha mãe arrumasse um emprego – afinal, os pimpolhos já estavam muito bem criados – aprendemos com ela criativas técnicas de sobrevivência, como a tradicional receita da maionese caseira.

Os ingredientes eram corriqueiros: 2 ou 3 ovos, pimenta, limão, mostarda, pitadas de coisas que não lembro e óleo, muito óleo. Ovos de gema avermelhada podiam dar aquela coloração bonita, alguns picles deixavam-na com jeitinho de molho tártaro e se, por outro lado, faltasse algum dos ingredientes menores, sempre se dava um jeito, a vontade de comer maionese superava qualquer problema. E depois, o grande segredo da maionese caseira, receita da vovó e titias lá de Pelotas, não estava em nenhum dos ingredientes, mas sim no modo de preparo: o desafio sempre foi acertar o ponto, deixá-la cremosinha, nem espessa demais, nem molenga demais.

Para chegar nesse ponto, batiam-se no liquidificador todos os ingredientes, depois o óleo deveria ser despejado muito lentamente com o aparelho sempre ligado. Isso levava intermináveis minutos para um adolescente espinhento e impaciente com uma lata de óleo na mão. Minha irmã não errava o ponto. Minha mãe então, nem se fala. Já comigo era risco certo. Mas lá em casa não tinha esse esquema de filhinho homem caçula desajeitado escapar da responsabilidade doméstica. Ainda bem, pois só com a prática forçada aprendi a controlar minha ansiedade de ver a maionese pronta antes de chegar no ponto – casos em que ela sempre desandava, virava sopa, era necessário jogar tudo fora e recomeçar.

Conversava com meu amigo P.M. sobre a necessidade de ser extremamente paciente na relação que ele vive atualmente. Como, aliás, em qualquer outra. E me veio na hora, não sei por que raios, a idéia da maionese caseira.

Tem relação em que os ingredientes são perfeitos (ou se não são, alguns podem perfeitamente ser substituídos por outros) e, embora essa junção seja dificílima de encontrar, não significa a princípio absolutamente nada. Pois é na mistura que a mágica acontece. É preciso manter a máquina sempre ligada e despejar o óleo com constância durante semanas, meses, anos para se chegar no ponto exato, verificando de vez em quando se falta aquela pimenta, um pouco mais de sal ou limão até. Pois ao primeiro sinal de impaciência, ansiedade, descuido, a coisa toda desanda do mesmo jeito. E não tem volta não. Outras vezes, a vontade de comer é tanta que os ingredientes disponíveis simplesmente parecem bons o bastante. Aí a gente despeja o óleo com todo o carinho sem perceber a podridão dos ovos ou o prazo de validade da mostarda. Não importa a experiência e dedicação, a coisa sempre azeda no final. Hora de jogar a gororoba fora, lavar bem o liquidificador, reunir os ingredientes com mais cuidado e começar tudo outra vez.

Bueno, o papo da maionese tava bom, mas não sei direito onde eu queria chegar. Nem sei se cheguei mesmo ou se esse post já desandou de vez - impaciência pra cuidar do blógui com mais carinho. É que embora eu continue fã de maionese, ultimamente ando bem mais a fim de bobó, cará, vatapá e acarajé.

5 Comments:

Anonymous Anônimo said...

você agora fez com que eu buscasse essa memória de infância também. minha mãe fazia e me ensinou a fazer a tal maionese caseira.
eu gostei da analogia também. é o tal do "apressado como crú".
mas pelo que pude observar ultimamente, sua maionese anda saindo no ponto exato.. ehehe
abraço
alien

10:41 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Que coisa difícil que é comentar nesse blog, hein???

Mutatches
http://www.mutatches.blogger.com.br

3:06 PM

 
Blogger D*b* said...

Vixe, Alien, e tu conseguia fazer essa maionese tão pequeninho? Isso deve explicar um pco da sua paixão pela gastronomia... Bom, qto à minha maionese, vamos ver, vamos ver... :-)

Mut, tem razão, tou até pensando em trocar o nome desse blógui para "Meu Umbigo"... E depois vc me conta direitinho como termina a Saga de Jamily, Turmalino e o Pé de Feijão, OK? :-)

11:30 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Caralho! Puta metáfora filha da puta! E o que se faz quando descubro que só gosto de maionese em sanduíches??? Putz... essa frase vai dar merda (ou vai desandar...)
Rique (AVMK?)
www.avmk.blogger.com.br

3:41 AM

 
Blogger D*b* said...

Hehehe Rique, vc quer mesmo que eu responda?

1:13 PM

 

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