sábado, setembro 18, 2004

Janela Indiscreta I

Sou voyeur de carteirinha e binóculos. E hoje, um vizinho coxudo de cuecas limpando sua varanda trouxe-me lembranças distantes de outras deliciosas janelas indiscretas. Como fui criado num subúrbio limpinho em Porto Alegre, cercado de verde e famílias com filhos pequenos (bocejos), a mudança para a cidade representou um mar de janelas a ser explorado e, em decorrência, um monte de histórias de vidas alheias a serem intuídas a partir de móveis, quadros, do acender e apagar das luzes e de exibcionismos explícitos também. Aí vai a primeira janela, que foi primeira mesmo, pois eu acabara de mudar da casa dos pais para um dos bairros mais efervescentes da cidade.

Cidade Baixa, Porto Alegre, 1992.

Sarmento Leite esquina com Lima e Silva, quinto andar. O apê, minúsculo. A vista, um solitário, alourado e hirsuto deus grego espreguiçando-se seminu junto à janela do edifício em frente. Tão à vontade que parecia não fazer a menor idéia do furor causado nos seus dois futuros vizinhos. E estes, compreendendo que aquela visão só poderia ser sinal de bom augúrio, trataram rapidamente de alugar o imóvel que tanto procuravam.

Com o tempo, descobriram que o solitário deus grego não estava só. Dividia a reduzida metragem quadrada com um moreno italiano da melhor espécie. Este, bem mais descontraído, preferia deixar seus dotes um pouco mais à mostra, mas com a janela menos escancarada. A persiana fechada na medida exata para que os novos vizinhos pudessem assistir, com exclusividade, ao desfile interminável de zorbinhas brancas, zorbinhas listradas, zorbinhas pretas. Em pelo menos uma ocasião, não houve zorbinha alguma.

Acontece que estes dois estudantes de arquitetura, residindo até então com os pais num subúrbio de classe média, jamais estiveram em contato com janelas alheias de forma tão explícita. E esta era a principal razão do seu total deslumbramento. E esta foi a razão pela qual esqueceram imediatamente os princípios da boa arquitetura e trataram de redistribuir a mobília para desfrutar do panorama da melhor maneira possível. Mesas de desenho encostadas na janela, televisor também.

E assim deliciavam-se todos os dias, sabiam a hora em que a persiana se abriria para dar início ao show. E imaginavam qual seriam seus nomes verdadeiros - apelidos eles já tinham – sua procedência, suas profissões, suas preferências sexuais e não sexuais. O trabalho na prancheta alongava-se por minutos a mais, a programação da TV pouco importava. Assitir de camarote o desfile da Zorba depois da 19:00, 19:30 era sempre o melhor programa. Até que um dia a persiana se fechou, para não mais abrir. Imensa decepção, como se a razão de estarem ali por um momento deixasse de existir. Mas numa rua estreita, com edifícios de dez andares, quem pára na janela para ver, um dia também é visto. E o ato de de desenharem por horas a fio no calor das luminárias, cortinas abertas e pouca roupa no tórrido verão portoalegrense trouxe, alguns meses depois, outras boas surpresas.


7 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Adorei a cidade baixa quando estive lá também. Sou dessa turma, ADORO ficar olhando pela janela por horas, ainda mais quando quero dar um tempo do trabalho aqui em casa. Em Campinas eu via de tudo, mas aqui no centrão de Sampa só umas rachas trocando de roupa, de sutiã e calcinha, uma decepção... Essa historia da indelicadeza, talvez tenha a ver com seu post, "Cansei de ser libriano"?
omegafone.zip.net

6:51 PM

 
Blogger D*b* said...

Hahaha, tadinho docê megafone, fazer o q? não se pode ter tanta sorte o tempo todo, né? :-) Aqui do meu apê dá pra ver cenas beeeeem mais quentes, mas isso é assunto pra terceira "janela". Qto à indelicadeza, pela primeira vez deletei um comentário, não vale a pena... Imagina, depois de meses visito o blógui de uma pessoa para saber como ela anda (pois nos encontramos na rua ontem) e vejo que ela continua a me ofender. triste isso, mas não é problema meu... :-(

7:17 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Vou contar a experiencia de voyeurismo que já tive uns anos atrás. Morei no apartamento de um namorado, ele tinha dois vizinhos que eram irmãos, e eu descobri que eles se revezavam na punheta teclando na internet. Toda noite um dos dois estava lá, batendo uma. E eu via tudo da janela do quarto de empregada. Um gostava de bater lendo contos na internet. O outro gostava de chat. Aí eu fiquei curioso pra ver que chat ele entrava, e comprei um binoculo, pq eu desconfiei q era chat gay, pois ele teclava e depois sempre terminava falando no tel com alguém, e gozava numa lixeirinha que tinha debaixo da mesa. Não consegui ver qual chat era, o binoculo não era tão bom, e acabei me cansando de vê-los. Minto, na verdade eles eram saradinhos, mas tinham pikinhas, e não há voyerismo que resista a tão desanimada visão! rs...abraços t.h.o.m.a.s.

2:48 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Putz, tudo o que eu via da janela do meu apartamento era um maldita velha pelancuda. Nem os netos dela se salvavam, sabe aqueles adolescentes que se vestenm de preto e não lavam os cabelos? Eram desse tipo. Certa vez fui eu quem dei um show ao sair do banheiro e dançar pela casa rodando a cueca. As meninas da frente ficaram passadas!

12:18 AM

 
Blogger Unknown said...

Ai, q inveja. Daqui domeu prédio, eu só vejo a vizinha gorda. E torço para que ninguém me veja muito à vontade no quarto... MEDO!

12:22 PM

 
Anonymous Anônimo said...

putz eu também sempre morei em casa e nunca tive esse lance voyerístico. o mais próximo que cheguei, foi quando namorava o Henrique que tem um vizinho que é policial civil, 1,90, loiro, tatuado e que fazia questão de ficar desfilando sem camisa pelo quintal. numa das vezes em que fiquei literalmente debruçado na janela vendo aquela maravilha, ele percebeu e foi para uma barra que tem no quintal e ficou se exercitando pra mostrar o corpão... afe! até hoje a lembrança dessa cena me causa frio na barriga. rs

11:13 PM

 
Blogger D*b* said...

Hmmm, deu pra ver pelos comentários que, pelo menos da janela pra fora, eu tenho tido uma sorte danada... :-)

3:46 PM

 

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