quarta-feira, outubro 13, 2004

Silêncio

Bebo até desabar, choro no limite do fôlego, fumo por compulsão, como e respiro por obrigação, caminho até os pés esfolados pedirem trégua, forço solidão e silêncio apesar do imenso apoio recebido, respondo e-mails tão zelosos com minha típica indelicadeza, penso tanto que o cérebro parece clamar por blábláblá televisivo, mesa redonda do campeonato brasileiro ou lixo que o valha, Lulu, Gil, Bebel, Marina, Adriana, Cazuza, Caetano non stop na vitrola, revistas de viagem, Aruba, Nova York, Fortaleza, Istambul, para onde fugir agora?

Quarenta e oito horas depois, acordo com a estranha sensação da cama vazia, ressaca curada, olheiras, boca seca, remorso. O pior passou e o pulso ainda pulsa. Café da manhã, trabalho, decisões a tomar, quarta, quinta, sexta, a rotina traz algum alento após feriadão tão feliz, tão infeliz. Agora está claro que os olhares não se cruzarão em momento algum, a companhia dos amigos não poderá ser compartilhada, nenhuma palavra deverá ser trocada. Acordo feito, como sempre, com respeito e compreensão. O melhor que pudemos fazer. Por ora.

Num breve momento de trégua, visito meu amigo K.C. que hoje parte para longe deixando tudo para trás, para finalmente viver ao lado de um amor de muitos anos, idas e vindas. Para tudo ou nada. Quisera ter as palavras certas para lhe dizer nessa hora, mas já me sinto feliz em poder levar as malas até o táxi e despedir-me com carinho. Espero poder revê-lo muito em breve, aliás, não. Espero que leve anos para revê-lo, que não haja retorno tão próximo, que tudo saia como desejado na nova vida deste que, sempre e mais do que nunca, me inspira a acreditar que é possível amar e ser amado com tanta intensidade, apesar de distâncias e diferenças aparentemente intransponíveis.

Viver é bom
nas curvas da estrada
Solidão que nada
Viver é bom
Partida e chegada
Solidão que nada
(George Israel/Nilo Romero/Cazuza)

5 Comments:

Blogger D*b* said...

Gracias, Luis, :-)

Acho que justamente por serem assim pesadões, meus Reloads costumam ser rápidos. Felizmente. Apesar da ressaca de ontem, a felicidade voltou. E espero que a amizade também volte em breve. E para que isso aconteça, deixei todas as portas e janelas abertas. Todas. :-)

11:13 PM

 
Blogger Edson said...

A um tempo eu achava que não vivia, hoje sei que vivo, pois coloco em tudo intensidade, se gosto, gosto muito, de fico deprê, fico totalmente....isso é a vida....sentimentos que nos movem...

1:53 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Eu perdi um grande amor por esses dias e uma amiga minha também perdeu. Temos feito compania um ao outro. A amizade é um tipo de amor não é?
As nossas noites tem sido a base de café com whisky e creme, cigarros, beck acampanhando um Chico Buarque de sobremesa. Mas tudo bem, porque mesmo atrás de uma nuvem espessa tem sempre um sol brilhando.

1:59 AM

 
Anonymous Anônimo said...

Acho que quando a gente joga limpo, respeita o outro e a si mesmo, e respeita a nossa ética, a dor sempre dói diferente, e deixa sempre marcas mais positivas do que negativas.. Marcas ficam sempre, e são como que a narrativa da nossa passagem pelo mundo, mas pelo menos podemos meio que tentar escolher o tipo de marcas que deixamos e recebemos dos outros, e eu respeito a forma como você levou as coisas. Com o tempo a gente compartilha coisas com o baixinho de novo, espero!
http://omegafone.zip.net

10:38 PM

 
Blogger D*b* said...

Alien, de alguma maneira, os novos ciclos têm sido sempre melhores, pelo menos o Poliana aqui tem os visto assim... :-)

Rique, foi ducaralho ter vc tão próximo nestes dias, espero que não precise, mas se precisar, sabe que pode me ligar imediatamente, se o seu celular já estiver funcionando, é claro... :-)

Afterglow, por mais que o coração aperte às vezes, não entendo como pude viver menos intensamente no passado. Houve anos em que estive morto sem perceber. Mas o bom é saber que este tempo jamais voltará.

Gus, pega leve. Sempre há o risco de vcs dois ficarem falando o tempo todos dos falecidos, quando às vezes o melhor é a gente se juntar tb a gentes de outras realidades... sei lá, pra mim funciona. :-)

Megafone, a franqueza que eu e ele conseguimos ter até o final possibilitou tudo isso, pelo menos eu acho que sim. Confesso que ainda temo que estas marcas mudem um dia por qualquer mal entendido, mas algo me diz que não ocorrerá.

2:32 AM

 

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