quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Diário de Bordo - Paraty, Fevereiro de 2005

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Foi nesse oásis onde ricos e pobres tropeçam embriagados pelas ruas, longe de seus carros importados ou carroças velhas, descobrindo com suas sandálias sujas o melhor trajeto entre pedras irregulares e poças de barro, que decidimos enfiar os pés na lama e na jaca mais uma vez. E, já conhecendo as armadilhas dessa encantadora e rústica cidadezinha, decidimos também poupar nossos Manolos e calçar modelitos mais simplesinhos antes de partir.

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Em época de muita chuva, o melhor a fazer é reservar uma ótima pousada. Mas melhor do que hospedar-se em uma ótima pousada, é ficar no Anexo da Pousada. A pelo menos 70 metros da recepcionista desconfiada e da criança remelenta mais próxima, com a chave do portão que dá acesso a uma entrada independente, onde não há controle algum no trajeto entre a rua e a sua cama king size. Não é tão emocionante quanto fazer pegação no mangue, mas tem frigobar.

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Caiçaras circulando com o cofrinho à mostra, exalando aquela elegância natural no movimento mais simples e em cada curva simplesmente me acabam. Já essas barbies paulistanas, espécie que infesta o carnaval litorâneo com suas regatas adidas justinhas, músculos inflados e nenhuma desenvoltura, além das inevitáveis carinhas de chupadoras de rôla, me dão vontade de largar tudo para viver um amor numa cabana. Bem longe delas. Por isso, desde já, estou encomendando a um amigo local, para a próxima viagem, o meu caiçara ‘ativo-liberal’ com marquinha de sunga e covinhas na bunda. Vai sair caro, mas eu mereço.

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Melhor do que pular ao som da bateria no meio do povaréu é quase copular ali mesmo. E, de tão bêbado, jurar que ninguém está reparando em vocês dois. Putz, eu ia pular essa parte, mas agora foi...

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O abismo que separa o inferno do paraíso pode ser transposto com 5 reais. É a bagatela paga para deixar pra trás hordas de farofeiros que abarrotam uma prainha besta e tomar uma barca até a ilha em frente. Um Caronte mulato de sunga mínima nos conduz ao paraíso executando movimentos inacreditáveis (suspiros...) para manter a barca no prumo e no rumo, enquanto todos aqueles comedores de coxinhas vão ficando, graças a Deus, cada vez mais distantes. Mas quando chegamos no outro lado, descobrimos aquilo que jamais deveria dividir conosco os preciosos e paradisíacos metros de areia: uma Bichinha Prada. Com seus imensos óculos de sol Armani e camisetinha Gucci, ela vive ali no meio da praia seu momento de glória, fazendo evoluções com uma toalha Dolce&Gabbana que deixariam Tieta do Agreste no chinelo Havaianas. Enquanto rolávamos de rir, a bicha magricela conseguiu ir além: tirou da sacolinha fashion seu snorkel e pés-de-pato multicoloridos e, saltitante, foi na direção do mar observar corais e peixinhos. Confesso que, por um ínfimo segundo, senti vergonha de ter nascido veado.

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Mas topar com um careca+tatuado+safado+gostoso+embriagado de SP no dia seguinte pode desfazer imediatamente essa visão do inferno. Aceitar o convite dele pra dar uma voltinha básica na Praia do Pontal de madrugada pode deixar tudo ainda melhor. E descobrir que ele não mora mais em SP só faz a gente ter certeza de que, nessa vida e principalmente nas noites de carnaval, não há um segundo a perder. Nem mesmo aqueles segundinhos que você perderia pra tirar os pés do mangue e conduzi-lo até a sua cama king size com frigobar. Mas nessa hora, quem precisa de frigobar?

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E como transformar um veado eclético como eu em um misógino de carteirinha? Carregue-o até a praia mais linda da região, lotada de bofes maravilhosos e mostre a ele que cada bofe, sem exceção, leva a tiracolo uma putinha loira cheia de celulites. E se ele ou você achar por um segundo que aqueles dois amigos sozinhos são meio suspeitos, espere mais 4 minutos e não se empolgue muito: lá vêm elas, as duas vagabundas que certamente estavam dentro de um banheiro infecto trocando seus modess, antes de chegarem aos gritinhos e beijarem aquelas duas delícias deitadas na areia. E vendo essas rachas nojentas se banquetearem bem na sua frente, vocês, sem palavras, acabam virando uma caipiroska atrás da outra, enquanto morrem de sede em frente ao mar.

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Só pra terminar, um pouco da refinada sabedoria popular impressa numa fachada de Paraty: Filho é como peido. Você só agüenta o seu.

5 Comments:

Blogger Marko said...

Adoraria ter visto a cena da quase-cópula no meio do povão... Mesmo tendo visto bem pior aqui em SP...

12:20 AM

 
Blogger Edson said...

Que Carnaval interessante, o careca tatuado no mangue de madrugada vc arrasou...

12:27 PM

 
Blogger D*b* said...

Luis, aquilo era a visão do inferno. A pisssoa à qual vc se refere só tinha uns surtinhos de vez em quando, nada do que ela devesse se envergonhar tanto... (mas agora q vc falou, bem q lembra um pco sim, seu f.d.p.!!!ehehehehe)

12:56 PM

 
Anonymous Anônimo said...

eu tô rindo muito!
ninguém merece uma bichinha prada!

6:02 PM

 
Blogger D*b* said...

Gcb, ficou em POA? Por que não foi no bailinho do Refugiu's??? :-)


Komentarista, acho que o babado aqui em SP foi melhor mesmo, mas pro que eu tinha na mão lá em Paraty não dá pra reclamar meeeeeesmo... :-)

Rique, já falamos, reclamamos, suspiramos, babamos e cortamos os pulsos tantas vezes por causa desses heteros deliciosos e suas mocréias indesgrudáveis... Não sei mais o que dizer...

Luis, daquele elogio que vc deixou certa vez lá no comecinho do blog, acho que pouco restou, némesmo? Mas vc me conhece muito bem, sabe que eu alterno eleganças e grosserias como quem troca de roupa... :-)

Alien, na real eu não me lembro de tudo. Tem horas em que beber e esquecer é um alívio. Em outras, um desperdício. :-)

Afterglow, os dois arrasaram, aquele mangue nunca mais será o mesmo...

Idman, como o Luis mesmo lembrou, eu conheço uma pessoa de um passado recente que talvez merecesse sim... hehehe

6:22 PM

 

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