quinta-feira, fevereiro 24, 2005

"A Telefonema"

- Empresa Tal, bom dia...
- Chamada a cobrar. Para aceitá-la, continue na linha após a identificação. Tuuu-rúúúúúúúú... Aíhn, quero falá com o reishponsável pela empresa.
- Quem gostaria de falar?
- Não interessa. É bom passá logo pra ele senão ele vai se ferrá bunito.
- Ok, vou transferir para o P*. (O outro (ir)responsável, o D*b*, estava de ressaca em casa)
- P*, tem um cara muito esquisito na linha, não se identificou e tá fazendo ameaças.
- Alô, quem está falando?
- Aíhn P*, é o seguintch. Eu sei que tu trabalha no endereço tal número tal.
- Quem está falando?
- Não interessa, a gente recebeu uma encomenda dumas dona aqui da comunidádch, tão querendo te apagá. Tão pagando 15 conto pra nóis, aí tu já era. Mas tu parece um cara legal, então a gente tá vendo se tu não cobre o lance, senão a gente vai aí fazê o serviço.
- (pânico e silêncio)
- Cuméquié P*, tu qué morrê? 15 mil amanhã na nossa mão!
- Olha, eu não tenho 15 mil, nem tenho como conseguir tanto dinheiro até amanhã.
- Seguintch, com 5 mil a gente pode até conversá. Essa grana vai pruma creche aqui dash quebrada. E tu vai recebê outra ligação amanhã.
- Ok, mas quem são vocês?
- Tu qué que eu chame o Mata-mata agora mehmo? Qué morrê??? Mata-maaaaaaaaata! O mané tá querendo nos enrolá! Vamo apagá o cara. Tá vendo mané, o mata-mata vai praí pra te pegá! Tu tá fudido! a gente tem uma foto da tua mulher e do teu filho.
- Vou desligar e chamar a polícia agora mesmo.
- Tu tá fudido, P*, a tua mulher e o teu...
- Tutututututututu...

Isso foi na última segunda-feira. Algumas pessoas, devido à minha ausência, vendo a expressão de pavor do meu sócio e ouvindo apenas parte da conversa, pensaram primeiramente que eu havia sido seqüestrado. Mas logo tudo foi esclarecido. Telefonando para a segurança do prédio onde funciona a empresa, descobrimos que dezenas de "responsáveis pela empresa" já haviam recebido ameaças anônimas idênticas e, só para piorar, faladas naquele carioquês do subúrbio. Chegaram a ameaçar matar o marido de uma moça que já estaria seqüestrado e era “torturado” durante o telefonema. No nosso caso, o responsável pela empresa é amiga, mas como os manés poderiam adivinhar, se todos os responsáveis pela empresas sempre são héteros, têm mulher e filhos? Enfim, tudo o que eles tinham na mão era o telefone e o endereço da empresa. E isso pode ser obtido em qualquer guia telefônico, site, enfim, por qualquer meio.

Por sua vez, a Polícia nos esclareceu que esse é um golpe bastante comum. Mas, na dúvida e no pânico, algumas pessoas podem acabar cedendo. E é com isso que contam esses manés: dão dezenas de telefonemas para conseguirem qualquer coisa: 15, 10, 5, 2 contos. Possivelmente, é gente que está na cadeia e espera receber, por exemplo, uma pequena fortuna em cartões de crédito telefônico que poderiam servir de moeda de troca entre os internos. Afinal, o celular é um aparato altamente difundido em nossas prisões. O pessoal da delegacia aconselhou-nos então a dizer simplesmente, caso voltassem a telefonar, que a ligação estaria grampeada e sendo rastreada pela polícia. Pelo menos foi o que eu compreendi da história toda, uma hora mais tarde e numa ressaca daquelas.

Enquanto aguardávamos o segundo telefonema, nos demos conta de como somos inexperientes para lidar com este tipo de situação, a começar pelo fato de entregar o nome do P*, que nem havia sido mencionado pelos manés. Talvez por viver em São Paulo, onde Vila Ângela e Jardins são lugares (ainda) tão distantes, circulamos tranqüilamente pela Paulista com a nítida sensação de que vivemos em um lugar seguro, de que não estamos sujeitos a golpes assim, armados com a simplicidade de um telefonema e um guia telefônico na mão. E quando me lembro de todo o nosso cotidiano exposto em Orkuts e tais, onde constam os lugares que freqüentamos, nomes dos amigos, dos familiares, dos clientes e tudo mais, aí, minha gente, a coisa começa a parecer realmente séria, muito séria. Prato cheio para um seqüestro, no mínimo. Mas antes de deletar o meu perfil por completo (desta vez de forma absolutamente consciente), prefiro deixar a cabeça esfriar um pouco mais. Talvez corte uma informação aqui, um scrap ali e deixe tudo mais ou menos como está. Ou não. Por enquanto, só consigo pensar no significado do telefonema. Não penso que foi à toa, apesar de termos sido uma escolha aleatória. Penso nele como um sinal para que estejamos mais atentos a tudo e a todos, para avaliarmos melhor os benefícios e malefícios da exposição pessoal das mais diversas formas, para olharmos constantemente pro que acontece fora da nossa redoma classe média conectada modernosa paulistana.

- Empresa Tal, boa tarde...
- Aíhn, quero falar com o P* agora mehmo!
- Sinto muito, ele está em horário de almoço.
- Seguintch, ou tu passa ele agora ou eu vou aí e tu tá ferrado, mermão.
- Preciso avisá-lo que esta ligação está sendo gravada pela polícia.
- Tututututututututu...

7 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Como eu senti um sotaque carioca na bandidagem, sugiro que o post se chame "A Telefonema", pois é como muita gente fala aqui...Enfim, terrível a história, será que um bina não ajuda nessas horas? Abs, tommie

12:03 AM

 
Blogger D*b* said...

Gostei. Tá lá! :-)

12:36 AM

 
Blogger Marko said...

Ah Db, que coisa mais chata... Bom, eu ia te mandar um scrap ou email a respeito daquela sua novidade no Orkut, espero que esteja devidamente apagada a essas horas, logo quando eu pensei em não me intrometer... Eu já fui vítima de golpe aparentado, mas em Sampa, não por telefone, e em outro contexto, mas o medo certamente é o que faz a gente ceder. Esses golpes de presos eu só conhecia da TV, to chocado que você foi vítima... Por favor se cuida!

2:35 AM

 
Anonymous Anônimo said...

Meda total, hein? E como saber se é só um golpe?
Antaggio
http://naosounormal.zip.net

4:36 PM

 
Blogger Mutatches Mischelle Tedezco said...

Era eu, bee...

Não lembrou da minha voz?

3:04 AM

 
Blogger D*b* said...

Oi pessoal,

A gente não tá noiado não, meu orkut segue intacto, o site da empresa será republicado daqui a pco, pois chegamos a tirá-lo do ar... fora isso, vai rolar bina e não se atendem mais telefonemas a cobrar - ontem mesmo, uma semana depois, ocorreram vários. Mas estamos certos de que não vai passar disso. Quer dizer, 100% de certeza nunca se tem, mas a vida transcorre normalmente assim mesmo. Bjos.

Mut, vai me dizer q a senhora estava acordada segunda-feira às 9 da matina... :-P

1:02 PM

 
Blogger D*b* said...

Alien, como vc trabalha com segurança de dados deve conhecer muito mais podres do que eu... Mas eu ainda confio em e-qualquer coisa, faço tudo de casa ou da empresa e deixo o resto na mão de Deus, senão é foda... E o pior, depois q vc já se sente 100% seguro, é ter a CERTEZA de que NADA vai acontecer com esses caras. :-(

3:19 PM

 

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