segunda-feira, março 14, 2005

Causando

Demonstrações públicas de afeto entre dois homens ou duas mulheres jamais deixarão de causar. Como alguém que já morou com o namorado no exterior, como um atual morador do bairro mais gay de São Paulo, acostumei-me a circular espontaneamente de mãos dadas com outro homem, a abraçar, a dar discretas bitocas de vez em quando. Dependendo, vamos um pouco além, mas só quando a carruagem já virou abóbora. Acostumei-me também aos olhares de espanto ou reprovação à minha volta, ao zumzumzum, às risadinhas nervosas e tudo mais. Tanto que, hoje em dia, desencanei completamente, a ponto de dificilmente reparar nesse tipo de reação.

Foi na conhecida faculdade de administração e economia onde estuda o Meu Namorado, também famosa pelas festinhas cujas fotos quentíssimas causaram furor na internet anos atrás, que O Beijo aconteceu. Enquanto rolava o trote dos bixos no espaço do Diretório Acadêmico, a gente simplesmente bebia, se olhava, sorria um para o outro e chegava cada vez mais perto. Contaram-me mais tarde que rolou ali na frente do povo bem mais do que uma bitoca, só que àquela hora a carruagem já havia virado abóbora e esse tipo de detalhe passou-me totalmente despercebido. Para mim foi somente um beijinho inocente, pois se eu não lembro é porque eu não fiz. E quem há de me provar o contrário?

Um menino aproximou-se sorrindo e deu aquela chamada básica, sem agressão, sem deboche. Simplesmente deu sua opinião para todo mundo ouvir: "aqui não.". Afirmou que o D.A. era território sagrado, que a sua irmã de sete anos já colocara os pés ali antes, blábláblá - mais tarde, soube que o mesmo garoto entrara no banheiro com uma menina, mas a isto, lógico, sua irmãzinha já devia estar bem acostumada. A situação evidentemente não era inédita para ninguém ali, nem em telenovelas, nem no mundo real. Duas bixetes, cumprindo parte de um trote, protagonizaram um beijo há dois anos no mesmo D.A. - mas aí a galera achou o maior tesão. Eu e o Meu Namorado já nos beijamos em outras festinhas da faculdade. Outro garoto achou ótimo, pois assim sobrava mais mulher pra ele. Dois garotos, provavelmente HTs, soltaram a franga, beijaram-se no rosto e então um mordeu o peitinho do outro só pra mostrar que, gays ou não, podiam fazer o que quisessem onde bem entendessem. Outro teve a idéia de escrever um artigo a respeito e publicar no jornal de circulação interna. E todo mundo ali ficou falando, mesmo que só de zoeira, que o pobre rapaz tinha sérios problemas sexuais a resolver.

Isso foi só o começo. A acalorada discussão que começou no D.A. reuniu uma galera, continuou no boteco ao lado e durou horas, juntando a dona do lugar, as filhas dela e quem mais pintasse por ali - menos nós dois que, àquela altura dos acontecimentos, ficamos só ouvindo e rindo de toda a causação, felizes com tantas manifestações de apoio vindas de gente praticamente desconhecida. O que me fez concluir que, nos círculos de gente bem nascida e bem criada, apesar de continuarmos sendo minoria, já contamos com o apoio da maioria esmagadora. Meia-noite passada. A polêmica regada a muita cerveja parecia não ter fim. E a gente, mal acreditando em tudo aquilo e já meio cansado de tanto auê, simplesmente bebia, se olhava, sorria um para o outro e chegava novamente cada vez mais perto.

11 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Jura que rolou beijo na GV?!?!? Que máximo!!!!

12:05 AM

 
Anonymous Anônimo said...

eu amei isso!
caramba, tem que ser assim mesmo!
na minha pós, estava dando uma aula demonstrativa e sem querer falei que era gay. continuei falando como se fosse a coisa mais normal do mundo, e depois da aula todo mundo veio falar que achou legal, que não imaginava, blá blá blá...
é assim mesmo: se não se impor a gente não ganha território. e não acho que é só berço de gente bem nascida. dá pra fazer isso em muito lugar, basta saber fazer.

11:28 AM

 
Anonymous Anônimo said...

ps: a bicha do Cara Normal, precisa falar o nome da Faculdade? todo mundo sabia onde era, e se vc quisesse ter falado o nome teria escrito correto? Tsc...tsc...

11:29 AM

 
Anonymous Anônimo said...

idman, depois de tantos beijos em público, calorosos debates, apoio quase unânime, falar o nome da faculdade é o de menos, né?(mas ok, o CN abriu aquela boca mais do que devia mesmo)...[tommie]

2:09 PM

 
Blogger Edson said...

tb acho que o povo tá mais cabeça aberta a ponto de defender estes atos, sem medo de parecer gay.....antes o pessoal nem falava pra não pensarem que são gays....legal isso....tb queria fazer isso..na boa....

10:20 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Incrível como um pequeno ato ainda pode ser tão perturbador para alguns. Talvez um dia possa se considerado algo comum e batido, um dia talvez...

5:11 PM

 
Blogger Ale Lima said...

Também estou na fase de " tacar o Foda-se " ....Das últimas vezes beijei um cara numa cidadezinha do nada em MG , no meio da pracinha com coreto , e outro no meio da Avenida Paulista. Acho que a exposição é desnecessária , mas acho que não podemos tomar isso como uma forma de repressão , independente de quem ache legal ou não. O efeito Jean é louvável ,mas enquanto não houver uma novela em que dois homens ou mulheres se beijem e namorem como pessoas comuns , nada mudará em grandes proporções...Abrãços

11:17 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Nada melhor do que a informação. Como vc disse, as pessoas bem criadas [com acesso a informação] sempre lidam melhor com o diferente. Tudo bem que isso não é regra, mas... Fico feliz em saber que esse tipo de coisa, hoje dim, causa discussões positivas e não violência. PARABÉNS PRA VCS!

12:22 AM

 
Anonymous Anônimo said...

Eu só tenho uma coisa para te dizer: YOU GO GIRL.
Antaggio

9:13 PM

 
Anonymous Anônimo said...

SOBRE O POST "A TELEFONEMA"

Fiquei sem entrar aqui por meses, por vários motivos, mas ontem (dia 02/04) voltei a ler os posts daqui, inclusive sobre o telefonema/trote/golpe bizarro a cobrar em que P* supsotamente seria assassinado mas seria poupado se cobrisse o valor.

Não é que hoje, menos de 24 horas depois de ler isso, eu recebo um telefonema a cobrar, um pouco menos agressivo mas com a mesma carioquice avisando que "uma pessoa da minha família havia sido sequestrada e que eu só poderia falar com ela 5 minutos depois que depositasse x reais" .

Na mesma hora eu retruquei dizendo q o telefone tinha bina (mentira) e que ligaria pra polícia, sendo xingado por nomes impublicáveis e ouvindo o emsmo "tututu".

Olha... se eu, mesmo tendo certeza que era trote/golpe, ainda sim fiquei histérico por demorar cerca de uma hora pra conseguir falar com minha irmã (liguei inclusive pra D*B* pra me acalmar), nem consigo imaginar o pavor que P* sentiu sendo ameaçado de morte por telefone. barra!

não desejo isso nem a meu pior inimigo.

d*b*, você continua sendo meu anjinho da guarda virtual. beijos cariocas em todos.

DJ LeoN, apreensivo.

5:52 PM

 
Blogger D*b* said...

Cara Normal, como vc adivinhou?

Rique, o mundo entre a Brigadeiro e a Rebouças já é to-di-nho nosso. Se joga, bee!

Id, a reação é sempre positiva. E se não é, desconfie. No quesito sexualidade, eu aposto muito mais nessa galera nova do que na minha geração.

Tommie, qndo vc retorna a SP, heeeinnn??? Vê se traz o Mut junto, caralho!

After, just do it, depois de fazer um reconhecimento de campo pra evitar eventuais porradas, é claro...

Gus, na festa da GV, 2 semanas depois, fizemos o mesmo muitas vezes e passou quase batido. Na verdade o povo até repara e comenta baixinho, mas só esse moleque ousou dizer o que pensava. No problem.

Alien, precisamos marcar um beijaço com os amigos qq dia desses. Que tal na final do Campeonato paulista no estádio do Morumbi? :-)))

Ale, pois é, esse presidentezinho da câmara querendo moralizar a TV, nosso principalr veículo de contestação, por mais careta que ainda seja. Pau no cu do Severino.

Digo, um dia espero que a gente possa fazer isso em qq lugar e não apenas nos guetinhos... Eu até faço, mas a possibilidade de sofrer uma violência nunca sai da cabeça...

Antaggio, :-)))))

DJ, finalmente descobri que esse bolog pode ter alguma utilidade para alguém!!! :-)))

2:43 PM

 

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