terça-feira, maio 31, 2005

Dia D



Muito se discutiu nos últimos dias a perda do significado político da Parada do Orgulho Gay. Muito se criticou sua conversão em farra popular sem conteúdo. Muito se condenou o lado comercial do evento, a injeção de dinheiro que o turismo rosa deu na cidade. Bullshitagem pura. Dois milhões de pessoas nas ruas, um quinto da população da cidade, praticamente todos maiores de idade e eleitores. Isso não é mobilização? Mostrar para um rapazinho de 15 anos, perdido no interior do país, que ele não precisa cometer suicídio por ser gay, que existem outros milhões iguais a ele fazendo a maior festa por aí, como visto em todos os noticiários. Isso faz diferença? Mostrar que levamos nosso dinheiro para onde formos, porque temos um poder econômico que também deve pesar na balança das negociações dos nossos direitos. Isso importa? Porra, claro que sim! Afinal, leis não são feitas justamente para atender aos principais grupos econômicos? E não foi utilizando-se do mesmo poder político e econômico que um punhado de evangélicos tentou aprovar no RJ uma lei que obrigasse o Estado a subsidiar a “conversão” de homossexuais? Não acho no geral que os gringos sejam exemplo pra muita coisa. Muito pelo contrário. Mas que as bichas de lá sabem como usar todo o seu poder para conquistar direitos e até mudar consciências, nem que seja através do bolso e do marketing bem feito, isso elas sabem. Uma pena que, como já é sabido, aqui embaixo tal sucesso não seja tão bem visto. E que o imediatismo burro seja sempre a desculpa para provar que nada pode dar certo, que nada vai mudar. Quem despreza a Parada, esquece que há dez anos mal se falava em direitos dos gays e que um projeto de união civil era impensável. Hoje, estamos mais próximos dele do que nunca. E isso se deve sem dúvida à nossa recente, contínua e sempre crescente visibilidade. Principalmente em paradas como a de São Paulo, novelas, bigbrothers ou nas ruas das grandes cidades.

Mas logo na manhã do Dia D, minha Odete Roitman deliciou-se ao ler, na coluna da Mônica Bergamo, os depoimentos de algumas da BFs(1) assumidas da cidade – Ocimar Versolato, Sig Bergamin, Emanoel Araújo, entre outras - sob o título "Vá à Parada Gay. Mas não me convide". O bom de ser famoso, sem ser político ou celebridade instantânea, é poder criticar em público este tipo de show por vezes grotesco que se vê nas ruas, sem que isso afete significativamente sua imagem pública. Acho necessário, alguém tem de fazê-lo e o melhor é que sejamos nós mesmas, as BFs. Por quê? Porque EU estava lá no asfalto, no exato momento em que as portas do inferno se abriram e a Paulista foi invadida por hordas de criaturas pavorosas que em nada inspiram orgulho e dignidade. Pra quê beber até vomitar, pra quê trepar dentro do caixa eletrônico e contar isso no jornal, pra quê expor a bunda siliconada? Não dava pra ser só um pouquinho mais elegante, mais palatável? Já não sabem que a Paulista estará, como em todos os anos, cheia de vovós, netinhos e cinegrafistas? Será que, pelo menos nesse dia, dá para lembrar que não estamos dentro de uma boate, sauna, banheirão ou dark room, que estamos fora do gueto, mostrando ao mundo que somos um pouco mais que paus e bundas?

Por outro lado, minha Deborah Cox(2) encheu-se de orgulho ao ver o povo enlouquecido gritando, dando muita pinta no asfalto e aplaudindo das janelas dos edifícios – nas primeiras paradas, faz tão pouco tempo, chegaram a jogar sacos com merda lá do alto. E tudo foi absolutamente como esperado: muita britney(3), muita barbie(4) e muita, muita trava(5) batendo cabelo na avenida. Com aquela pitada básica de pagode-sapatão só pra dar o contraponto. É, quem me conhece bem, sabe que eu abomino muito tudo isso. Mas em dia de festa, pra que encanar? O importante é que as bibas e as rachas amigas compareceram em peso. E, politizadas ou não, mostraram a cara pro país e se divertiram pra caralho. Com o espetáculo em si, com o Serra fazendo a linha simpatizante, com o desfile de homens liiiiiiindos que não davam a mííííínima para elas. E, lógico, com o corpo “dos” bombeiros, que arrancou aplausos e deixou as bacurinhas em chamas (né, Alien?).

Enfim, muito se pode argumentar contra ou a favor de um evento com tamanha proporção e diversidade. Mas convenhamos: se até São Pedro mais uma vez mostrou que é Santa e fez a sua parte, limpando todas as nuvens do céu de São Paulo no Dia D, quem esse punhado de bichas mal-comidas pensa que é para fechar a cara e dizer que a Parada Gay não serve pra nada?


Heterolegenda:
(1) BF - Bicha Fina
(2) Deborah Cox - Representante máxima da Drag Music, vertente da música eletrônica cultuada por homossexuais e caracterizada por vocais femininos ensurdecedores.
(3) Britney - gay afeminado de baixo poder aquisitivo.
(4) Barbie - gay anabolizado desprovido de massa encefálica.
(5) Trava - traveco, travesti.

6 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Nossa que alívio! Obrigado por escrever isso, eu nunca teria saco de articular as palavras!

11:14 PM

 
Blogger Ale Lima said...

Bom , eu estava lá no meio daquela balbúdria toda. Vou escrever sobre isso ,mas quero supor que o DIA D pra mim é muito especial , parece a final da Copa do Mundo , para aqueles que gostam de futebol. Concordo que as pessoas deveriam se expor menos no dia e ser um pouco mais elegantes , sem fazer xixi na rua , jogar lixo , trepar na calçada , essas coisas que descreveu. É uma grande vitrine pra mostrar que somos civilizados. Bjs

12:19 PM

 
Blogger Mutatches Mischelle Tedezco said...

Então eu devo ser uma mal-comida...

1:46 AM

 
Blogger FKS said...

Eu concordo com as bichas finas...
A Parada fica muito bonita no Jornal da Globo.
Lá embaixo, na avenida, deve ser foda...

11:36 AM

 
Blogger Thiago Lasco said...

Cara, acho que esse foi um dos melhores textos sobre a parada que eu li num blog. Concordo com tudo isso, e o meu texto foi no mesmo sentido que o seu.

Criticar a Parada, a essa altura do campeonato, é puro recalque. Esquecem de como foi difícil chegar até aqui.

E que venham mais bombeiros !!!

11:46 AM

 
Blogger D*b* said...

Marko, thanx! :-)

Ale, concordo que, se ainda vemos a Parada como parte de um movimento maior, estas atitudes deveriam ser evitadas. ;-)


Mutz, só uma coisa: venha e veja! ;-)

Rique, tb acho. Mas qndo vc é minoria isso pega muito mal.

Fks, é como qq rave. Quem não gosta de multidão não vai curtir a parada.

Introspective, vc tinha q ver o q era o bombeirão. Não foi à toa que ganhou menção especial no post... hehehe

5:10 PM

 

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